Crítica: 57 minutos – O Tempo Que Dura Esta Peça, texto, direção e interpretação Anderson Moreira Sales | Blog e-Urbanidade

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57 minutos - Foto: Pedro Mendes
57 minutos - Foto: Pedro Mendes
57 minutos - Foto: Pedro Mendes
57 minutos – Foto: Pedro Mendes

57 minutos – O Tempo Que Dura Esta Peça, cartaz do Espaço Parlapatões, texto, direção e interpretação de Anderson Moreira Sales, é teatro performático. A dramaturgia e encenação rompem com os elementos naturalistas, em que a coesão é o seu fundamento, e usufrui das diferentes possibilidades cênicas para criar no assistidor uma anticatarse. E assim, refletir sobre a jornada de todos nós, diante da dureza da vida.

Inspirado no livro Ulisses, do escritor irlandês James Joyce (1882-1941), Anderson vai da sua própria jornada, assim que começa o espetáculo, ao Leopoldo/Esteves/Aki. Único personagem, morador de uma grande cidade que sai e retorna à casa em busca de cumprir seus compromissos. E se isso parece trivial demais, a dramaturgia aposta na complexidade humana dessas pequenas coisas, repletas de subtexto de preconceitos, desrespeito, desigualdade e falta de empatia.

57 minutos usa a liquidez como premissa básica para contar os acontecimentos. Coloca em flutuação desde o nome da personagem principal até o próprio título da peça. Afinal, não acontece no tempo pré-estabelecido. Seria uma provocação a cordialidade brasileira ou uma constatação de como um bom contador de história pode levar o ouvinte por onde quiser?

Segundo Anderson, as múltiplas funções assumidas por ele na montagem têm uma explicação prática: a possibilidade de fazer teatro de baixo custo. Mineiro, mas residente em Porto Alegre, a vinda para São Paulo, sem patrocínio e graças às economias pessoais, mostra determinação. É uma forma de alcançar um público que não seja composto apenas por profissionais de teatro, possível, segundo o ator, apenas em São Paulo. E conclui: para sobreviver é preciso coragem!

A encenação funciona bem e colabora com a dramaturgia ora determinando cortes, ora criando estética. É sempre admirável os encenadores e suas equipes que conseguem ser originais com poucos elementos.

Anderson-ator domina a cena, sem afetação, e cresce no espetáculo, inclusive quando se distancia do tom confessional.

[toggle title=”SAIBA MAIS SOBRE ANDERSON ” state=”close”]
É bacharel em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2012, participou do Fringe no Festival de Teatro de Curitiba com O Bom, O Mau E O Fim.

Em 2013, atuou em Sonhos impossíveis, que foi indicado ao prêmio Mais Teatro Revelação na categoria de melhor espetáculo.
Em 2015, participou de A Cadeia Alimentar, indicado a Melhor Espetáculo, Direção a Atuação no prêmio Mais Teatro Revelação. Nesse mesmo ano, atuou, dirigiu e escreveu a dramaturgia do monólogo Lujin, indicado ao Prêmio Açorianos, a principal premiação do Rio Grande do Sul, nas categorias de melhores espetáculo, ator e dramaturgia, tendo vencido nesta última.

Em 2016, atuou em Como Gostais, que foi indicado ao Prêmio Açorianos em mais de sete categorias. Em 2017, foi produtor da Cia. Stravaganza no ano de comemoração dos 30 anos da trupe.

Estreou no final de 2018 o seu novo espetáculo solo 57 minutos – O Tempo Que Dura Esta Peça, no qual exerce novamente as funções de ator, diretor e dramaturgo.

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Ainda vale destaque para as montagens teatrais que propõem ao público o tato, olfato e paladar, ampliando a dualidade simplista do áudio-visual. Em 57 Minutos o assistidor pode experimentar pinga (de minas) e pão de queijo (amassado ao vivo). Mesmo assim, a ação simpática não acrescenta à dramaturgia e precisaria de uma intencionalidade com a história contada.

É verdade que o teatro performático tem a capacidade de aproximar o assistidor à narrativa, nessa fragmentação entre ficção e realidade, mas seu grande valor está em fazer pensar! E aqui há um claro convite à reflexão sobre a igualdade de oportunidades neste mundo controverso, em que realizar tarefas simples já é difícil, imagina os tais sonhos!

Leopoldo ou Esteves ou Aki, não importa o nome, é o (anti)herói do cotidiano, do metrô diário lotado e parado, da homofobia, do atraso na entrevista de emprego, dos amores perdidos, da não-empatia. Sua jornada não é íntima, mas é coletiva, social. Afinal, formar identidade nessas condições não é apenas mi-mi-mi. É ausência de condições históricas e sociais para subverter esse jogo.

(Atenção: O espetáculo fica em cartaz até dia 10/07. Aproveite o feriado!)

Serviço
4 de junho a 10 de julho, às terças e quartas-feiras, às 21h.
Indicação Etária: 12 anos

FICHA TÉCNICA
Texto, direção e atuação: Anderson Moreira Sales
Iluminação: Ricardo Vivian
Cenografia: Ricardo Vivian e Anderson Moreira Sales
Trilha sonora: Kevin Brezolin
Cenotécnico: Jony Pereira
Operação de luz: Reynaldo Thomaz
Fotos: Pedro Mendes
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Assessoria de imprensa: Bruno Motta e Verônica Domingues – Agência Fática
Produção: Áquila Mattos e Anderson Moreira Sales

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