Cinco perguntas para a atriz Beth Goulart

A atriz contou sobre o livro que acaba de lançar e que trata de temas sensíveis como vida, luto e literatura.

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Beth Goulart - Foto Nana Moraes
Beth Goulart - Foto Nana Moraes

“Para escrever sobre a vida, primeiro você deve vivê-la“, disse uma vez o escritor Ernest Hemingway. E assim fez a atriz Beth Goulart, após um longo processo de escrita com seu primeiro livro Viver É Uma Arte: Transformando A Dor Em Palavras, lançamento da Editora Letramento.

Todos nós passamos por situações que nos trazem um misto de vivências, ao mesmo tempo em que elas podem ser transformadoras e nos causar dor, mas também podem nos levar à uma sensação de renascimento, aprendizado e força. Com o ritmo frenético que a existência nos impõe, às vezes acabamos por não elaborar questões profundas e apenas seguimos adiante, pois em muitas circunstâncias é o que de fato nos resta. No entanto, as pausas, a consciência sobre os nossos próprios processos, as reflexões e a profundidade também fazem parte de nosso cotidiano – ou ao menos, deveriam fazer – como forma de autocuidado e autocompaixão com nós mesmos.

E é esse emaranhado de vivências profundas que a atriz Beth Goulart traz em seu novo livro, contando histórias que unem as gerações de uma família de artistas, formadas pelos pais Nicette Bruno e Paulo Goulart, ícones da cultura nacional. A arte de atuar tão potente uniu mãe e filha, mas para muito além dos palcos, a união também veio pela escrita.

Pouco tempo após a morte do pai, as atrizes decidiram que escreveriam um livro juntas. No entanto, o projeto acabou interrompido em 2020, com a partida da mãe, durante a pandemia.

Beth reúne vários prêmios em sua carreira e agora também nos encanta com sua escrita potente e sensível, em meio a um processo de luto e superação. E ela contou mais detalhes ao e-Urbanidade.

#1 – e-Urbanidade: Você trata de sentimentos muito intensos, delicados e profundos em seu livro, Viver É Uma Arte: Transformando A Dor Em Palavras, que durante o transcurso passou por um momento de pausa, após a partida de sua mãe, e quando ambas tratavam da perda de seu pai, o ator Paulo Goulart. Como foi seu processo de retomar a escrita após a elaboração desses lutos?

Beth Goulart: Foi como sair de um mergulho profundo depois de nadar bastante. Depois da exaustão pelo esforço existe uma pausa, um momento de silêncio em que nada mais existe, só você e sua essência.  Sabe aquela sensação de começar de novo? E agora? Como será a vida sem ela? São muitas perguntas, então aproveitei este estado de vazio e, a partir do zero, comecei a registrar meus sentimentos.

A literatura é uma linguagem que pode falar de sensações, de estados de alma, de descobertas e questionamentos. Foi uma nova maneira de comunicação que se abriu para mim e espero ter essa conexão com os leitores como meus companheiros de jornada. Vamos juntos refletir sobre a vida, sobre essa experiência tão forte que é perder quem a gente ama.

Perder a mãe te joga nesse lugar, nos sentimos órfãos e temos que aprender a seguir sozinhos, usando todos os nossos recursos internos para isso, descobrindo um potencial novo que pode ser usado criativamente em benefício de todos. Tive que aprender a ser mãe de mim mesma, isso nos leva a um amadurecimento e a um crescimento muito grandes.

#2 – Quais são suas autoras e autores favoritos? Como se deram essas preferências? Quais memórias e sentimentos eles e elas te trazem?

B.G: Bem, eu tenho um amor especial por Clarice Lispector, justamente por essa capacidade de olhar dentro da gente. Ela fala muito bem sobre os sentimentos sutis, sobre as sensações, sobre o que está atrás do pensamento. E isso me encanta, o mistério do mundo, ela é minha grande referência literária. Leio Clarice desde minha adolescência e cada vez que releio é uma nova descoberta. Ela me ajudou muito a compreender que “Amar não acaba”.

Adoro Guimarães Rosa, pois ele conseguiu criar uma nova língua e mostrar a sabedoria do homem simples que possui o conhecimento da vida, os meandros da natureza, as relações do ser com a Terra, com o tempo e com sua missão no mundo. Ele me ensinou que “Saudade é ser depois de ter”.

Amo Cora Coralina, uma poeta que extrai poesia da vida como seus doces extraem sabor de seus frutos, “uma mulher a quem o tempo muito ensinou”, nunca desistiu do sonho de escrever e o realizou. Com 75 anos editou seu primeiro livro com maestria deixando um legado de amor e respeito pela Terra, pela humanidade, pelos abandonados do mundo. Seu coração era justo e lindo, suas ações franciscanas como sua fé, uma empreendedora que criou quatro filhos sozinha e voltou para sua Goiás para plantar sua poesia e suas flores.

Nélida Piñon, uma escritora que tece seus textos com a sabedoria de todos os tempos e lugares, da Grécia, Galícia, Portugal, Brasil. Textos com a força e a dimensão do sagrado. Escreve com a alma dos imortais e com a generosidade dos que amam os animais. Uma autora que diz: “O escritor não deve apenas criar, mas deve também emprestar sua consciência à consciência de seus leitores, sobretudo num país como o Brasil”.

Lya Luft, uma escritora que soube como poucos traduzir sua alma em seus depoimentos. Com a beleza poética inspirada por Rilke, ela consegue nos fazer sentir e pensar ao mesmo tempo, refletir e contextualizar seus conceitos. “Perdas e Ganhos” foi o desabafo de sua alma que mais almas conseguiu tocar, inclusive a minha. Ela diz: “Aprender a perder a pessoa amada é, afinal, aprender a ganhar-se a si mesmo, e ganhar de outra forma, realmente assumindo todo o bem que ela representava”. Só essa frase já resume tudo o que estou passando neste momento.

Muitos outros autores me alimentam e me fazem apaixonar, mas escolhi esses que refletem o meu momento presente. Gratidão e amor por todos eles.

#3. De que forma o trabalho de atriz te ajudou a superar os processos de perdas com pessoas tão queridas?

B.G: Na verdade meu trabalho de atriz me ajuda a compreender o mundo e a humanidade, mas o que realmente me ajudou neste momento foi a literatura. Ela conversava comigo no silêncio e aguardava o eco de meu coração na nova visão que se descortinava para mim.

Escrever é muitas vezes terapêutico assim como a pintura, mas, ao colocar em palavras meus sentimentos, eles surgiam em novas dimensões de compreensão e aceitação do processo cíclico da vida. Falar da morte é uma forma de valorizar a vida e todos os ensinamentos que ela contém.

Desenvolvi um diálogo interno com meus leitores, num diálogo imaginário, é como ouvi certa vez de um terapeuta: Uma cura virtual é uma cura real. Vivemos universos internos ao escrever e nossa imaginação pode criar novos mundos e novas possibilidades de existir. Isso me impulsiona a criar.

#4. Em 2014 você pôde dirigir sua mãe na peça Perdas E Ganhos, com texto homônimo de Lya Luft, após o falecimento de seu pai, também um ícone da cultura brasileira. Por que esse livro e essa autora?

B.G: Admiro Lya Luft, mas especificamente este texto tem um potência única e é muito significativo para nós. Dirigir minha mãe foi um privilégio maravilhoso, pudemos através do palco fortalecer ainda mais nossa parceria e as palavras de Lya serviam como uma luva naquele momento de nossas vidas.

Pudemos fazer uma bela homenagem a meu pai, pois, na adaptação que fiz, trouxe para a vida de minha mãe e sua história todas as reflexões propostas por Lya, quando se referia ao casamento, era dela e de meu pai que estava falando, assim como da infância até a maturidade.

Era minha mãe que conduzia o espetáculo através de suas memórias, sua vida e de sua perda. Ao final do espetáculo ela dizia para o público: “Aprendi que a melhor homenagem que posso fazer a quem se foi é viver como ele gostaria que eu vivesse, bem integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos até impossíveis, onde eu ainda possa acreditar, não faz muita diferença em quê, desde que não seja no mal, na violência, no negativo. É o poderoso ciclo da existência”. Era muito forte ver e ouvir esse texto dito por ela com todo amor e resiliência. Foi um privilégio!

#5. Como foi manter a arte viva nesses dois anos críticos, tendo uma perda tão importante como a de sua mãe e ao lado de tantas outras famílias brasileiras? Que reflexão você faz de nossa sociedade e de nossa área cultural neste período de provável pós-pandemia?

B.G: Particularmente, a literatura me salvou, assim como a música, o cinema, a televisão e a dança. Era o que trazia algumas cores e luzes em meus dias e dentro de minha casa.  

Passamos dois anos de reclusão e pudemos sentir como a arte e a cultura fazem falta em nossa vida e como sem ela enlouquecemos, Nietzsche nos diz que “a arte existe porque a vida não basta”, o teatro é a arte da resistência. Ele nunca morrerá. O teatro é a arte da humanidade porque enquanto houver um ser humano diante de outro ser humano o teatro estará acontecendo.

Historicamente falando, já passamos por muitas fases e muitos ataques, mas o momento presente é crítico para quem faz arte no Brasil. Vivemos uma desvalorização orquestrada de uma classe, de um ofício, de uma atividade que tem como objetivo melhorar a sociedade. Estamos doentes e a arte cura, a arte salva e transforma.

Uma sociedade sem cultura perde sua identidade, sua voz, sua liberdade. A verdadeira liberdade é a liberdade de ser e quando se limita a capacidade de criar, imaginar, sentir, se emocionar, também perdemos a capacidade de trocar, de aprender, de se indignar. Deixamos de ser humanos. Seremos menos amorosos e mais egoístas, menos gentis e mais agressivos, menos justos e mais impositivos. Impedir toda uma classe de realizar o seu trabalho é destruir sua dignidade, sua capacidade de existir e realizar.

A arte une, ensina, ajuda, alegra, acorda e faz do ser humano alguém que se importa com o outro, alguém que quer o melhor para todos, alguém que faz da vida uma oportunidade de crescimento e bem comum.

Temos a oportunidade de escolher, que saibamos escolher bem para que a arte se fortaleça novamente e, como a Fênix, renasça de suas cinzas.

Apoie e-Urbanidade e compre por este link.

Viver É Uma Arte: Transformando A Dor Em Palavras
Autora: Beth Goulart
Preço: R$ 59,90 (impresso) e R$ 34,90 (e-book)
Gênero: Não ficção (Memórias)
Páginas: 138
Editora: Letramento / Grupo Editorial Letramento

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