Casa 1 e Teatro Oficina revisitam juntos obra de Mário de Andrade

Parceria entre o Centro Cultural Casa 1 e Teatro Oficina promove o site Pauliceia Desvairada, que reúne leituras dramáticas de poemas de Mário de Andrade.

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Capa Paulicéia Desvairada - Criação Nolo
Capa Paulicéia Desvairada - Criação Nolo

Há exatos 100 anos acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna, que impactaria os mais diversos campos das artes. Ocorrida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, o evento reuniu poetas, pintores, escritores numa tentativa de romper com uma ordem estética europeia vigente. Entre alguns desses artistas estava o poeta Mário de Andrade (1893-1945), que em 1920 havia escrito o livro de poemas Pauliceia Desvairada, um marco na literatura brasileira.

Agora, 100 anos depois, um projeto do Centro Cultural Casa 1, uma ONG de acolhida LGBT+, convidou 21 artistas da Companhia Teatro Oficina Uzyna Uzona para fazerem as leituras dramáticas do livro de Mário de Andrade.

Os artistas e suas criações

O projeto conta com 21 vídeos e com artistas de todas as gerações da companhia, como Marcelo Drummond, Camila Mota, Letícia Coura, Joana Medeiros, Kael Studart, Lucas Andrade e Wallie Ruy. A trilha sonora dos vídeos é assinada por Amanda Ferraresi, da banda do Oficina.

O Prefácio Interessantíssimo, que antecipa os poemas, também foi interpretado por um artista LGBT+: o quadrinhista Ivo Puiupo, que ressignificou as páginas escritas por Mário para a linguagem em quadrinhos.

O projeto também ganhou um site exclusivo e já está disponível para acesso.

A identidade visual, criada pelo artista Nolo, faz uma releitura da capa da 1ª edição livro, que ficou conhecida pelo padrão geométrico de losangos coloridos.

Para muitos, o lançamento dessa primeira edição é um marco do Modernismo brasileiro e, por isso, será relembrado pelos projetos que celebram o centenário da publicação.

Escritos ainda em 1920, os poemas retratam o clima vertiginoso da capital paulista no início daquela década. Segundo o próprio Mário, a ideia do livro surgiu após a indignação de sua família ao vê-lo comprar uma escultura de Victor Brecheret que revelava a face de Jesus Cristo, com os cabelos trançados:

“A notícia correu num átimo, e a parentada que morava pegado invadiu a casa para ver. E pra brigar. Berravam, berravam. Aquilo até era pecado mortal!, estrilava a senhora minha tia velha, matriarca da família. Onde se viu Cristo de trancinha!, era feio, medonho! […] Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era matar. Jantei por dentro, num estado inimaginável de estraçalho. Depois subi para o meu quarto, era noitinha, na intenção de me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo. Me lembro que cheguei à sacada, olhando sem ver o meu largo do Paissandu. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Eu estava aparentemente calmo, como que indestinado. Não sei o que me deu. Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, Pauliceia desvairada.”

O lado LGBT+ de Mário de Andrade

Para a Casa 1, este projeto foi criado para celebrar o centenário da Semana de Arte Moderna e marcar a presença de artistas LGBT+ na história da arte brasileira.

Isso porque, mesmo que não se fale muito sobre o assunto, existem indícios de que Mário de Andrade era uma pessoa LGBT+. Em sua correspondência e na memória de amigos próximos, está claro que o intelectual se interessava por outros homens. Esta discussão, inclusive, pode ainda gerar novas interpretações e produções culturais, já que ainda pouco se fala sobre o assunto.

Por se tratar de uma instituição que também busca preservar e revisitar a memória de pessoas LGBT+, a Casa 1 encara este projeto não como uma “saída de armário” póstuma para Mário de Andrade, mas sim uma maneira de redescobrir a obra do autor enquanto pessoa queer.

O projeto pode ser visto no site Pauliceia Desvairada e nas redes sociais da Casa 1.

FICHA TÉCNICA
Paulicéia Desvairada
Criação e concepção: Iran Giusti, Angelo Castro e Brenda Amaral.
Produção: Angelo Castro, Ledah Martins e Victor Rosa.
Artistas em cena: Angélica Taise, Brenda Amaral, Cafira Zoé, Camila Mota, Cynthia Monteiro, Débora Balarine, Jennifer Glass, Joana Medeiros, Kael Studart, Letícia Coura, Luana Della Cristi, Lucas Andrade, Marcelo Dummond, Mayara Baptista, Otto Barros, Selma Paiva, Tony Reis, Victor Rosa, Victória Pedrosa, Wallie Ruy.
Sonoplastia: Amanda Ferraresi
Quadrinhos do Prefácio Interessantíssimo: Ivo Puiupo
Captação das imagens: Angelo Castro.
Legendagem: Angelo Castro e Brenda Amaral.
Cenografia: Iran Giusti, Angelo Castro, Bruno Oliveira e Jamac – Jardim Miriam Arte Clube.
Identidade Visual: Nolo.
Criação do site, redes sociais e assessoria de imprensa: Brenda Amaral.

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