Atriz Nicole Cordery estreia como escritora

Atriz do teatro paulistano, em plena atividade durante a pandemia, Nicole Cordery estreia na literatura em Cadernos de Viagem Herdados.

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Cadernos de Viagens Herdados - Foto: Divulgação
Cadernos de Viagens Herdados - Foto: Divulgação

A atriz Nicole Cordery faz sua estreia literária, com Cadernos de Viagem Herdados, selo da Editora Claraboia e com ilustrações de Rita Carelli.

Cordery é natural de Niteroi, e se formou como atriz na CAL, em 1996. Com espírito nômade, veio para São Paulo em 2000 – ano em que entrou para o Grupo Tapa. Seis anos depois mudou-se para Paris, lá cursou a École Jacques Lecoq e fez mestrado em Estudos Teatrais na Sorbonne Nouvelle. No intervalo entre uma produção e outra, durante seu confinamento em 2020, finalizou Cadernos De Viagem Herdados.

Uma costura delicada de muitas histórias

Maio de 2020. Uma personagem que vive em Madrid recebe pelo correio alguns cadernos de viagem de sua prima, que vivia no Brasil, mas que havia ficado entubada por duas semanas, vindo a falecer, sendo mais uma das mais de 656.000 vítimas da covid-19.

Agora cabe à essa mulher vivente publicar os cadernos da prima, que chegam à mão da personagem por um pedido da própria parente e de seu marido, como forma de incentivá-la a publicá-los. Dessa forma, inspirar outras mulheres a percorrerem suas próprias viagens e se lançarem pelo mundo com suas liberdades.

O livro é composto por diversas crônicas, com as memórias viajantes da prima por diversos países, como também por cidades brasileiras. As histórias se entrelaçam com as memórias da prima falecida, como também com as memórias da infância da personagem que recebe os cadernos.

A herdeira das cartas relembra a prima criança numa festa junina na casa da família em Teresópolis, ou ainda adolescentes no Carnaval com os amigos em Ouro Preto, ao som de Caetano e Cartola. Há também o relato da mulher que bate-boca com um motorista argentino que a impede de usar o banheiro do ônibus. Essas e muitas outras histórias revelam uma mulher divertida, melancólica e ao mesmo tempo, livre e com sede de descobrir o mundo.

Nicole conversou com o e-Urbanidade contando sobre os detalhes da publicação.

Entrevista

#1. e-Urbanidade: Como foi seu processo de escrita? Como foi para você escrever um livro tão sensível, em um momento tão delicado? Além disso ao criar uma personagem que se apropria de histórias que não eram suas, e de alguém que teve um falecimento trágico, como foi a de muitos outros brasileiros?

Nicole Cordery : Meu processo de escrita se deu em fluxos de residências, e ao longo de muitas escritas durante a minha vida. Sou uma atriz viajante e empresto algumas viagens minhas à personagem, então essas memórias me despertaram o desejo de me expressar através da escrita.

Mas o livro em si foi sendo elaborado e escrito ao longo de quatro anos. Eu me isolava, viajava para algum destino próximo em que pudesse ter tranquilidade, ou me afastar das demandas cotidianas, e passava todo o tempo disponível só escrevendo e revisando.

Com a pandemia me veio com clareza a necessidade de criar esse duplo que é a prima, a pessoa que organiza os cadernos. Eu queria dar voz a alguém que teve sua vida interrompida. Era urgente falar de um indivíduo para retratar tantas pessoas que morreram na pandemia, no Brasil e no mundo.

Não fazia sentido, para mim, falar de viagens se a realidade me apresentava o confinamento, então a morte de um indivíduo seria o fio que poderia nos levar a viajar novamente, mesmo que através do resgate, da memória.

#2. Quanto tempo você levou para escrever o livro e como era o seu ritmo de escrita? Quais foram suas maiores dificuldades e o que te motivou a escrevê-lo? 

N.C : Considerando que comecei a organizar, na tela, o livro em 2018, levei quatro anos na escrita e revisões. O livro é um projeto vivo, ele muda com o passar do tempo. Se considerarmos que a primeira viagem lembrada pela personagem viajante é de 1983, o livro vem sendo escrito ao longo da existência da minha memória.

Meu ritmo era cíclico. Eu viajava, me isolava e tinha alguns dias para mergulhar nas águas desse livro. Ia até onde conseguisse, e voltava para a minha vida regular, de peças, apresentações, ensaios, filmagens. Me distanciava completamente do projeto. Muitas vezes pensei que ele não sairia dessa gaveta virtual. Era um arquivo, um arquivo importante, que às vezes eu me debruçava sobre. Mas só conseguia abri-lo em viagens, e isso foi curioso.

Na etapa final, quando vieram as revisões, eu tive que ser mais objetiva, e trabalhar de casa. Grande parte dessa revisão final foi feita nas férias de Natal, visitando a família. Então é um livro majoritariamente escrito fora de casa.

As dificuldades foram as incertezas que acredito que muitos artistas trazem consigo, as mesmas que me acompanham no teatro. Será que a obra chegará a seu público? Será que essa estrutura narrativa tocará outras pessoas? Será que tudo isso – há tanto tempo dentro da minha cabeça – faz de fato algum sentido?

Quando a agente literária Debora Guterman me retornou sinalizando que queria trabalhar o meu livro, e depois quando fui escolhida pela Editora Claraboia para ser publicada, entendi que sim, valeria a pena continuar e seguir.

E o que me motiva a escrever é a troca? É a busca pelo contato com o outro. É a necessidade de deixar um recado para as novas gerações sobre o quanto é libertador viajar.

A minha geração aprendeu que sair sozinha era perigoso, viajar sozinha era impensável, mal visto, havia um estigma. Hoje já estamos em outro lugar, mas é importante sermos donas das novas narrativas.

#3. De onde surgiram tantas memórias? 

N.C : Muitas são minhas, algumas inventadas, costuradas com memórias, ou falsas memórias. Sou uma mulher de 47 anos, vivi e viajei bastante, conheci inúmeras viajantes, e como atriz observo o outro.

#4. Como você acha que o Brasil hoje está lidando neste período de  suposta quase pós-pandemia? Teremos esquecido tudo o que vivemos?

N.C : Não podemos. Precisamos honrar nossos mortos. Todas as pessoas de todas as classes sociais, credos ou posicionamentos políticos perderam alguém.

Vivemos um Brasil partido, infelizmente. Não posso falar sobre como o Brasil está lidando com essa suposta quase pós-pandemia, pois pertenço a uma fatia desse país que lida com o luto, o medo, ainda, de sair, uma certa fobia social. Vontade e medo de abraçar.

Eu acredito no crescimento do ser humano. Acredito no afeto e na transformação através da arte.

Ficha Técnica

Cadernos de Viagem Herdados
Autora: Nicole Cordery
Ilustrações: Rita Carelli
Editora Claraboia
Gênero: Ficção
Formato: 14×21
Páginas: 192

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