Entrevista com o ator Iuri Saraiva em cartaz em Fábula e Roda dos Três Amigos | Blog e-Urbanidade

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Iuri Saraiva - Foto: Felipe Felizardo
Iuri Saraiva - Foto: Felipe Felizardo
Iuri Saraiva - Foto: Felipe Felizardo
Iuri Saraiva – Foto: Felipe Felizardo

O ator Iuri Saraiva terminou a temporada de A Catástrofe do Sucesso, com textos Tennessee Williams e direção Marco Antônio Pâmio, e já está em cartaz em Fábula e Roda dos Três Amigos, dramaturgia de Flávio Ermírio e direção César Baptista.

Iuri, Oliver Tibeau e Thomaz Mussnich interpretam os três jovens artistas: Salvador Dalí, Federico García Lorca, e Luis Buñuel. A montagem está em cartaz no SESC Pinheiros.

Artista talentoso que vem se destacando na cena paulistana, o ator fala sobre seus trabalhos recentes e do momento atual.

#1 – Blog e-Urbanidade: Qual a atualidade do encontro de Lorca, Dalí e Buñuel para os dias de hoje?
Iuri Saraiva: Falamos de um dramaturgo assassinado em um regime totalitário, um cineasta perseguido por comunismo e um pintor que aliou-se ao regime de Franco. Se partirmos dessas informações, já podemos traçar alguns paralelos com nosso momento histórico. Mas o que mais ecoa em mim do texto e da encenação é a necessidade de união.

Vou falar da parte que me compete que é a do artista; nossa classe é um emaranhado de opiniões sinceras e elaboradas sobre uma infinidade de coisas e isso é lindo, é o que nos faz fortes e perigosos. Porém, na minha visão simples de sujeito, é também o que nos afasta e nos deixa míopes diante de uma ameaça que dispensa maiores elaborações e embates de opinião.

O artista é uma figura política não porque ele age politicamente, mas porque ele informa e forma opiniões políticas. É partindo dessa premissa que devemos nos unir contra as figuras asquerosas e purulentas que governam hoje.

#2 – Para interpretar Dali, uma figura tão emblemática, por onde começou a sua construção?
I.S.: Comecei o trabalho pela escuta. O diretor César Baptista deixou claro que não tinha o objetivo de fazer o público acreditar que Lorca, Buñuel e Dalí estavam no palco. “Não tenho essa pretensão” ele dizia. Gostei muito dessa opção, pois me demandava de um forma mais ampla. Eu não tinha a missão de expressar um Dalí sabido por todos, mas sim de criar um Salvador a partir do jogo com os companheiros Oliver Tibeau e Thomaz Mussnich.

O cuidado que o César tem com a emissão da palavra foi o meu norte nesse processo, sem dúvidas. As imagens precisavam ser entregues com clareza, tendo em visto o quão arrojado e cortante é o texto do Flávio Ermínio.

#3 – Você acabou de encerrar uma temporada em A Catástrofe do Sucesso (onde está nomeado entre os Melhores Atores do 1º semestre pelo Blog e-Urbanidade). O que daquele denso trabalho você trouxe para esse?

I.S.: Antes de responder, quero agradecer o reconhecimento do meu trabalho pelo Blog e-Urbanidade, foi uma grata surpresa! 

A Catástrofe do Sucesso - Foto: Bob Sousa
A Catástrofe do Sucesso – Foto: Bob Sousa

A Catástrofe do Sucesso foi uma cascata de aprendizados. Tanto na direção precisa e cuidadosa do Marco Antônio Pâmio quanto na troca de cena raríssima que tive com Camila dos Anjos, que é a idealizadora do projeto e uma mulher por quem tenho grande admiração.

Acredito que cada trabalho imprime no corpo um caminho. O que Tennessee Williams deixou impresso em mim foi esperança: “Vida! Eu os desafio a interrompe-la para sempre! Nem com todas as suas armas, nem com toda a sua destruição! Nós continuaremos cantando! Um dia todo o ar da terra será preenchido com o nosso canto!” Essa frase vai comigo não só para Fábula e Roda, mas para a vida toda.

#4 – Percebe-se uma maturidade sua em cena que o destaca também em Fábula e a Roda, então qual o caminho virtuoso para a carreira de ator?

I.S.: Digo para o Oliver e o Thomaz que só entro tranquilo naquele caixão porque sei que eles estão lá comigo. Destaque é um negócio fluído e escorregadio. Gosto de olhar ele sorrindo, mas sem tentar tocar com os dedos, sabe?

Quanto ao caminho virtuoso do ator, eu me sentiria presunçoso ao tentar responder essa pergunta. A única certeza que sedimentou-se no meu caminho é a de que o ator precisa se entender como artista antes de ver seu reflexo de ator no espelho.

#5 – Diante de tanta irracionalidade nos discursos extremistas atuais, o que não deu certo: a racionalidade cartesiana ou o ama-te-ao-próximo-como-a-si-mesmo?

I.S.: Deu errado a dialética entre esses dois extremos. A humanidade é adolescente e o Brasil é uma criança tentando enfiar um quadrado onde deveria entrar uma esfera. As pessoas só se reconhecem nos extremos… Ou se drogam a noite toda clamando por utopia ou inventam companhias de Teatro Conservador.

Falta respeito, mas falta bom senso. Os dois extremos são legítimos e tem licença para existir. Esse é o limiar do respeito. Mas como concordar com um extremo que, para existir, precisa acabar, esconder, matar ou desfavorecer outro ponto de vista? Esse é o limiar do bom senso. Não vale tudo em nome do que é legítimo, não importa o ponto de vista.

# 6 – O que emocionou Iuri Saraiva nos últimos tempos? Por quê?

I.S.: Faz algumas semanas fui assistir Condominio Visniec, dirigida pela Clara Carvalho. A peça é um apanhado de textos surrealistas de um escritor romeno chamado Matéi Visniec, encenados de forma poética e repleta de imagens traduzidas no corpo dos atores. Foi uma noite muito boa!

Assisti esses dias, quase de uma vez só, a terceira temporada de Strangers Things. Pra quem jogou RPG a vida toda, essa série é um perigo.

Serviço
De 27 de junho até 20 de julho de 2019. Quinta a sábado, às 20h30
Indicação Etária: 14 anos

FICHA TÉCNICA
Texto: Flávio Ermírio
Elenco: Iuri Saraiva, Oliver Tibeau e Thomaz Mussnich
Direção, Iluminação e Trilha Sonora: César Baptista
Assistentes de Direção: Arno Afonso e Patrícia Carvalho
Preparação Corporal: Patrícia Carvalho
Cenário, Adereços e Patchwork: Mirtis Moraes
Videografismo e Videomapping: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)
Figurino: A Equipe
Marcenaria: Marcus Geimer
Fotos: Flávio Ermírio
Estagiário: Paulo Castelo
Produção Executiva: Nathália Gouveia
Assistente de Produção: Cora Valentini
Direção de Produção: Flávio Ermírio e Thomaz Mussnich
Produção: Poétika Produções
Realização Sesc

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