3 perguntas para 3 dramaturgistas da Ocupação FarOFFa

0
5
Ocupação FarOFFa - Fotos: Divulgação/Canal Aberto
Ocupação FarOFFa - Fotos: Divulgação/Canal Aberto

Colaborou Márcia Marques*

Ocupação FarOFFa - Fotos: Divulgação/Canal Aberto
Ocupação FarOFFa – Fotos: Divulgação/Canal Aberto

Criado em 2020, a FarOFFa chega a mais uma edição reunindo 100 produtores teatrais com seis provocadores e cinco dramaturgistas. A proposta é a de convergir ideias e potências de fazeres artísticos a partir de dinâmicas, fóruns e criações.

“Para o ser humano, dividir é perda, para as plantas, dividir é multiplicar. Eu quero, para mim, a ética das plantas (…) Essa Ocupação é um mergulho de criação para a produção. É a chance dos produtores se juntarem, num sistema semi-imersivo, e discutir ideias, imaginar possibilidades, caminhos, futuros, pra gente continuar”, define Gabi Gonçalves, idealizadora da Ocupação.

O processo inicia com o provocadores lançando inquietações e estímulos nos fóruns. Essa turma é composta por nomes como Christine Greiner, Denise Ferreira da Silva, José Fernando Peixoto de Azevedo, Jota Mombaça, Leda Maria Martins e Valentina Desideri.

Na sequência, os participantes discutem os temas propostos na primeira reunião com apoio dos e das dramaturgistas. Aqui quer-se relatar as memórias das conversar. O processo conclui com o texto elaborado pelo diretor e crítico teatral Fernando Pivotto. Assim, ele arremata as construções coletivas levantadas na edição.

A jornalista Márcia Marques*, em colaboração ao e-Urbanidade, conversou com 3 destas dramaturgistas sobre suas propostas e expectativas. São elas: Cynthia Margareth, gestora cultural, atriz e fundadora da Aflorar Cultura; a performer, encenadora e pesquisadora Elisa Band; e a atriz e pesquisadora de artes do corpo, Fernanda Raquel.

#1 – e-Urbanidade: De qual modo é possível exercer o dramaturgismo em um encontro? Como ele pode mediar / organizar / atiçar o fluxo deste encontro?

Cynthia Margareth: Acolher a pluralidade de vozes e pensamentos para tecer uma narrativa do encontro. O dramaturgismo como colheita da experiência vivida por todes no encontro pode nos convidar ao processo. 

Como o processo de um plantio: diagnosticar o solo comum, separar as sementes de cada experiência entendendo de onde cada participante lança o seu olhar para esse território de semeadura. Organizar o que será semeado e regar o fluxo de falas, inquietações. Lançar perguntas como quem aduba um solo para frutificar. 

Elisa Band: Um encontro é uma constelação de atravessamentos dos mais diversos: desejos, vontades, entendimentos, planos, apostas, ideias, hesitações. O dramaturgismo pode tentar reconhecer como diferentes instâncias poéticas, criativas, políticas, afetivas se entrelaçam e se sobrepõem, e então pode ser uma estratégia de se sugerir rotas que desimpeçam estagnações e abram fluxos, que promova algum tipo de circulação entre as pessoas, que algo passe.

Um encontro é quando algo acontece. Não precisa ser um gesto grandioso, ou um projeto ou algo da ordem de um produto, mas perceber as entrelinhas do que é dito e do que não é dito. E fomentar uma certa porosidade que permite que as pessoas de fato troquem e fiquem mais permeáveis aos diferentes contextos, afetivos, sociais, criativos, das pessoas que participam desse encontro.

Fernanda Raquel: O exercício do dramaturgismo pode ser entendido como um modo de fazer reverberar as vozes em diálogo, como uma colaboração ao reconhecimento da paisagem que vai se desenhando no debate. Creio que a principal maneira de colaborar com um encontro, a partir do lugar de dramaturgista, seja ativando movimentos e pausas quando necessário, pensando o pensamento coletivo que vai emergindo a partir de um encontro. Talvez pela minha experiência como improvisadora, vejo o dramaturgismo similar ao exercício de composição das possibilidades compartilhadas, um ensaísta em tempo real.

#2- Quais convites o dramaturgismo faz a quem lê? 

Cynthia Margareth: Caminhar juntes, partilhar de um percurso. Dividir ideias para semear rotas possíveis num mundo incerto.

Elisa Band: O texto que vamos gerar a partir desses encontros é um desdobramento poético e reflexivo do que se passou na ocupação. Esse desdobramento é uma forma com que esse evento possa se estender para além dos quatro dias de encontro, e se comunique com mais pessoas de outros lugares e tempos.

Além disso, esses textos produzidos não são uma “ata”, mas diferentes metabolizações, de modo que mesmo quem participou poderá reler a partir de diferentes perspectivas o evento. Um terceiro convite é o que esses textos continuem a gerar movimentos, que gerem novas inquietações, que gerem outros movimentos, e assim por diante.

Fernanda Raquel: O dramaturgismo convida leitores a adentrarem um processo no qual não estiveram presentes. Pode mesmo ser entendido como um convite à participação, a uma ampliação do exercício reflexivo que não se encerra no momento do acontecimento.

#3 – O que significa pensar a produção como eixo criativo? No contexto desta Ocupação, quais similaridades e diferenças existem entre ela e o dramaturgismo?

Cynthia Margareth: Pensar a produção como eixo criativo é reconhecer todes os envolvidos num processo artístico como agentes criadores. É o deslocar a produção do seu lugar mais executivo, mais mecânico, para chegar em um território muito mais interessante para todos os que estão envolvidos neste tipo de trabalho em rede.

Entender a produção como criação desperta a percepção de cada indivíduo sobre a sua força, sua potência inventiva no projeto, coloca a produção como eixo participativo e criativo, no qual é possível se reinventar e fazer do dia-a-dia um período de constante troca, afeto e aprendizado, mesmo nas tarefas mais prosaicas.  

E no contexto dessa ocupação acredito que esse olhar para a produção aproxima e se assemelha com a busca de um dramatugismo do encontro, por entender que para ambos os processos é preciso aplicar práticas criativas como modo de se priorizar entre as pessoas envolvidas: os vínculos, a colaboração, o convívio, o afeto. E convida todes a serem participativos no processo de ocupar e refletir.  

Acredito que esse território de ocupação que a FAROFFA propõe convida todos para pisar em um chão de colaboração e criação.

Elisa Band: Pensar a produção como eixo criativo é se desvincular de uma visão utilitarista ou mercadológica da produção e pensar em um sentido ampliado do termo: produção de ideias, de relações, de gestos micropolíticos, de troca de experiências.

No contexto da ocupação, o dramaturgismo, assim como o ato de se repensar uma ideia de produção, tem similaridades no sentido em que coletam os materiais disponíveis e tentam transformá-los, revê-los sobre outras perspectivas, e assim tentar alinhavar conceitos e modos de vida para tentar criar outras tessituras que ajudem a inventar outros sentidos possíveis quando estes que estão aí não dão conta.

Fernanda Raquel: Modos de criação e meios de produção são inseparáveis. Assim, a produção tem papel fundamental na criação de universos artísticos. Ao se pensar em eixos do fazer criativo, produção e dramaturgismo ocupam lugares diferentes nesta FAROFFA.

A primeira aparece através do compartilhamento de seus métodos e experiências, como constituição de um campo de saber. Já o dramaturgismo volta-se para a tessitura do que insiste deste campo, no encontro de trajetórias singulares. Pensando na Ocupação, trata-se de um processo de co-criação de algo a se estender no tempo.

*Márcia Marques é formada em Comunicação pela FAAP e assessora projetos, instituições, companhias e artistas da área cultural desde 1993.

SERVIÇO 
Ocupação FarOFFa
Das 09h às 12h e das 14h às 16h.
Dias 24 e 25 de maio – Portal MUD – www.portalmud.com.br
Dias 26 e 27 de maio – Plataforma Teatro – www.plataformateatro.com

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here